Em Manaus uma nova realidade tem se delineado no horizonte dos deficientes visuais. Com a ajuda do Governo Federal e Estadual, a Escola Estadual Especial Joanna Rodrigues Vieira oferece as pessoas com essa necessidade, uma biblioteca que condiz com suas particularidades.
A Biblioteca Braille foi fundada no dia em novembro de 1999 pelo Governo do Estado do Amazonas com administração da Secretaria de Estado de Cultura (SEC). O acervo conta com mais de 1700 títulos, para pessoas de 0 (zero) anos até a idade adulta, para que de acordo com suas condições próprias adquiram acesso a autonomia, conhecimentos gerais e normas de vida. Para isso acontecer, a escola conta com uma parceria firmada com a Fundação Torina Novil de São Paulo, que fornece todos os meses, material didático como livros em braile e em formatos de CD de todas as disciplinas do ensino fundamental e médio, além de clássicos da literatura brasileira.
Com o suporte oferecido pela biblioteca, a diretora da escola Nelsanei Silva, afirma que o índice de aprovação dos alunos no último ano chegou a ser de 60%. Ainda segundo a diretora “um aluno deficiente visual custa em média para o Estado cerca de R$2.160, enquanto que um reprovado ultrapassa os R$6 mil”. Esses números mostram o quanto é necessária a manutenção e a aquisição cada vez maior de material especial para o estudo.
Um exemplo do sucesso da Biblioteca Braile no Estado do Amazonas, é que 75 alunos que passaram por lá, já ingressaram no ensino superior das universidades públicas e particulares do Estado. Para Gilson Moura, gerente da instituição, a notícia reafirma a importância do auxílio aos deficientes visuais e o preparo do Amazonas para esta tarefa.- Estamos hoje em primeiro lugar no Brasil como o Estado com mais cegos na universidade pública - enfatizou.
De acordo com o deficiente visual Francisco Sales, que cursa o 3° período do curso de Letras em Língua Portuguesa na Universidade ULBRA e responsável pela Biblioteca Braile na Escola junto com a professora Mirtes Melo, o primeiro passo a ser dado é a estimulação precoce que acontece nas salas de aula da Escola. Esse processo consiste em desenvolver a coordenação motora dos deficientes desde criança. Depois dessa etapa, os alunos passam a ter contato com o material didático, e se precisarem de apoio especial passam a freqüentar a sala de reforço dentro da escola, que conta com professores especializados que procura em livros (de tinta) o assunto que interessa ao aluno.
Francisco revela que a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) não possui uma biblioteca braile, entretanto supre essa necessidade com um projeto criado que designa uma monitora para ajudar o aluno deficiente, anotando o conteúdo dado em aula e auxiliando-o de todas as formas. Para isso esses monitores recebem mensalmente uma bolsa remunerada do Governo do Estado.
O estudante afirma que o principal problema enfrentado pelos deficientes visuais nas Universidades é a falta de material. “A gente fica como ouvinte nas salas de aula. Ainda mais com esse método de ensino a distância, cada vez mais comum nas universidades”, conta.
No mais, Francisco revela que é uma grande satisfação poder dividir o mesmo ambiente escolar com pessoas que enxergam, e que isso o motiva cada vez mais em busca do sucesso “o deficiente visual muitas vezes supera as outras pessoas, porque a gente tem a audição como ponto forte, e isso nos faz mentalizar e lembrar de tudo o que nos interessa”. Segundo ele, alguns colegas de sala nem lêem e nem dão importância ao que o professor fala em sala de aula “a gente como não tem o caderno pra anotar e estudar depois, temos que nos concentrar no que o professor diz, e isso faz com que aprendemos”, analisa.
Material didático
Na Biblioteca Braile do Amazonas, os deficientes visuais contam com uma estrutura composta por livros-aúdio, livros em braile, reglete, máquina Perkis e o sorobam. O reglete é o caderno do deficiente visual, e acoplado nele vem uma espécie de régua com diversos furos, através da qual o deficiente “escreve” furando os pontinhos. O braile é na verdade um código que representa as letras convencionais, utilizando 63 combinações diferentes, com pontos, acentuação, numeração e letras.
A máquina Perkis é similar a uma máquina datilográfica, entretanto desempenha a mesma função do reglete. Francisco Sales diz que “numa Perkis eu digito em 1 segundo o que eu levaria 3 segundos para escrever no reglete”. Para ele, que perdeu a vista quando tinha 10 anos, a memória conseguiu ainda gravar algumas formas de letras, mas que isso não é problema “um deficiente visual através do reglete e da Perkis, tem a mesma capacidade de escrever quanto qualquer um”, afirma.
Sales também destaca o sorobam, que serve para resolver os problemas de matemática. De acordo com o estudante, muitas pessoas pensam que o aparelho serve como uma calculadora, mas que não é. “O sorobam é a única ferramenta que nós temos para resolver questões de adição, subtração, multiplicação e divisão, e não dá a resposta como muitos pensam. Se a pessoa não souber nenhuma dessas operações não consegue fazer nada!”, informa aos mais desavisados.

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